Schaeffer: uma abordagem inicial

“Francis Schaeffer foi um dos principais pensadores evangélicos contemporâneos que procurou compreender a cultura secular.” (FERREIRA, 2019).

Entendendo o conceito de filosofia, como propõe o próprio Francis Schaeffer, enquanto visão de mundo, certamente, pode-se dizer que ele foi um importante filósofo do século XX. Podemos resumir seu ministério em três fases: pastor, fundador do L’Abri e ativista político. Ao longo dessas fases, muitas ideias foram construídas, desconstruídas e transformadas no pensamento de Schaeffer de acordo com o período em que vivia. Grande parte delas está expressa nos seus muitos livros publicados.

Francis August Schaeffer nasceu em 30 de janeiro de 1912, em Germantown, Pensilvânia, nos Estados Unidos. O processo de conversão de Schaeffer se deu, em 1930, a partir da própria leitura da Bíblia. Assim como aconteceu com sua conversão, a leitura da Escritura foi decisiva em diversas etapas de sua vida e ministério..

Afim de compreender as ideias de Schaeffer e o impacto delas sobre a sociedade da época, importa conhecer o contexto em que vivia. Durante este período, estavam instauradas na sociedade moderna as ideias Iluministas. A ciência ocupara, em grande parte, o lugar da Igreja que perdera o poder. Movimentos filosóficos como o racionalismo e empirismo, embora apresentassem divergências entre si, concordavam que Deus não deveria intervir no conhecimento humano. Teólogos procuraram somar as ideias racionalistas à crença em Deus, de modo que afirmavam Sua existência, mas negavam a Sua intervenção. A bíblia, segundo estes princípios, deixava de ser a Palavra de Deus e tornava-se um testemunho de fé do povo de Israel e da Igreja Primitiva. O impacto desta nova percepção originou um movimento dentro do cristianismo chamado liberalismo. A teologia liberal, que espalhou-se pelas igrejas da Europa e avançou para os Estados Unidos, foi, em suma, a tentativa de adaptar as doutrinas do cristianismo à ciência e filosofia moderna.

O fundamentalismo apresenta-se, portanto, como uma reação conservadora à teologia liberal. O termo está relacionado a sua principal causa: defender os fundamentos do cristianismo bíblico. Pastores, presbíteros e professores americanos de diferentes denominações uniram-se com o objetivo de combater os princípios liberalistas que tentavam deturpar a fé cristã.

Schaeffer, conhecedor da Escritura, questionava o que a Bíblia tem a dizer não só sobre questões religiosas, mas sobre as várias áreas da vida. Ao lê-la e encontrar as respostas que procurava sobre os mais diferentes assuntos, encontrou argumentos para resistir fortemente a teologia liberal e unir-se aos fundamentalistas. Tal característica marcou, enfaticamente, o início de seu ministério.

Entre 1935 e 1938, Schaeffer casou-se com Edith Sevilha, que muito contribui para seu ministério, obteve a graduação no Seminário teológico e foi ordenado como ministro da nova denominação surgida no contexto, a Igreja Presbiteriana Bíblica. Seguiu pastoreando algumas Igrejas nos Estados Unidos, até, em 1947, ser enviado em missão para Lausanne, na Suíça, para onde mudou-se com sua esposa e três filhos. O trabalho missionário de Schaeffer e sua família exerceu forte influência religiosa no país, já que pregavam a fé baseada na tradição protestante, numa região predominantemente católica. O movimento fundamentalista passou por diversas divisões, à medida que radicalizava suas ideias.

“Consequentemente, o termo fundamentalista começa a ter conotação de intransigência, divisionismo, intolerância, anti-intelectualismo, e falta de preocupação com problemas sociais.” (NICODEMUS, 2011).

Schaeffer, classificado por Nicodemus (2012) como fundamentalista cristão histórico, entra em desacordo com o movimentoquando percebe que suas ideias já ultrapassavam os ensinamentos das Escrituras em relação a temas fundamentais.

Schaeffer passou a questionar “Senhor, onde se encontra a realidade espiritual da maior parte do que se autointitula ortodoxia?” (Schaeffer apud Dulci, 2019, p. ?).

Ele identificou o chamado “problema da realidade”, quando deu-se conta de que aos fundamentalistas (ortodoxos), faltava a realidade das coisas narradas na Bíblia como resultado do cristianismo. A resposta para este problema estaria na interpretação de sua teoria dos três círculos concêntricos.

Em sua teoria, Schaeffer explica que para a vida cristã, tanto a apologética, quanto as declarações intelectuais das doutrinas da fé cristã são importantes, se somadas e nutridas pela realidade espiritual, ou seja, o mais íntimo e interior dos círculos que corresponde ao “relacionamento pessoal e individual da alma com a pessoa de Deus”. O processo intelectual cristão, aconteceria, portanto, de dentro para fora. “A fé precisa controlar o pensamento” (Dulci, 2019). Esse período da vida de Schaeffer, em 1951, é conhecido como crise espiritual e está descrito em seu livro Verdadeira Espiritualidade.

Superado este momento, com as ideias reformadas e divulgadas, inclusive nos Estados Unidos, onde esteve pregando nos anos que sucederam, Schaeffer e a família retornam a Suíça e, em 1955, ao mudarem-se para uma nova região, ocuparam o chalé que na sequência daria origem, ainda que informalmente, a comunidade L’Abri (que significa abrigo, em francês).

O L’Abri surgiu, não com o intuito de fundar um ministério evangelístico, nem de atender a algum público específico, mas a partir do dispor de Schaeffer e Edith para serem usados, conforme a vontade de Deus. A comunidade recebia pessoas de diversas nacionalidades e crenças que tinham questionamentos e ansiavam por respostas. As questões sociais e culturais da época, suscitadas, especialmente, por jovens universitários, eram debatidas com base na perspectiva cristã. A eles era oferecida a hospitalidade, por meio do diálogo, verdade e amor.


A partir da fundação da primeira casa de L’Abri, outras tantas obras suas foram lançadas, palestras e pregações foram feitas. Sua contribuição e o alcance de seu ministério só aumentaram. Francis Schaeffer faleceu em 15 de maio de 1984, aos 72 anos, acometido por um câncer. Após sua morte, foi publicado o seu último livro “O Manifesto Cristão” que reunia as ideias de sua última fase, o ativismo político.

Edith e Francis Schaeffer foram os fundadores do L’Abri.

 

A filosofia de Schaeffer
Schaeffer sustentou seu pensamento em duas vertentes, apologética e política. Ou seja, salientava a importância da defesa da fé, bem como do envolvimento dos cristãos na política a fim de influenciar os destinos de sua nação e do mundo.
A apologética, para Schaeffer, pretende mostrar ao incrédulo que “a sua vida sem Cristo é irracional e sem sentido”. “Ele acreditava que o gênero humano, cristãos e não, estavam perdendo tempo com a irracionalidade.” (KAPPELMAN, 1999, p.1) O renascimento trouxera ao homem a ideia de que tudo poderia ser explicado pela razão, mas as questões filosóficas superavam a racionalidade. Schaeffer afirmava, portanto, que ao invés de acatar a fuga da razão, para responder os problemas filosóficos de seu tempo, os cristãos deviam recorrer às Escrituras. Considera que Deus tenha deixado para o homem as respostas na forma de revelação geral ou natural e específica. Enquanto, revelação geral consiste no conhecimento que todos têm da existência de Deus, ainda que não creiam, e no conhecimento prévio acerca do certo e errado, a revelação específica traduz-se no evangelho.

Diálogo com os filósofos modernos
Analisando o desenvolvimento do pensamento neste período de transitoriedade histórica (modernidade para pós modernidade), Schaeffer estabeleceu o conceito de “linha do desespero”. Seria, esta, a linha divisória entre os paradigmas dos absolutos e da relatividade. Schaeffer analisava, então, as consequências do relativismo, ou seja, abandono da verdade pelo homem moderno. Passou-se a acreditar nas verdades exclusivas que existem simultaneamente. Assim, a realidade objetiva não existe e nada é verdade. Como resultado, tem-se o desespero do homem que não conhece o que é verdadeiro. Ele chama a atenção para a irracionalidade e adverte que o Cristianismo deve ser fundamentado na verdade (racional).

Schaeffer confirma a indispensabilidade de Deus, quando revela três áreas em que o ser humano tem necessidade absoluta dEle: metafisicas (existência do homem), moralidades (comportamento) e epistemologia (conhecimento). A partir dessa suposição, busca dialogar com os diversos pensadores modernos. Schaeffer criticava o dualismo Natureza e Graça, defendido por Tomás de Aquino, uma vez que o pensamento Tomista considerava que os efeitos da Queda tinham sido parciais. Isto quer dizer, a Queda afetou a vontade, mas não o intelecto humano. Aquino entendia, portanto, que o intelecto permaneceria intacto e conferiria autonomia ao homem. Assim sendo, o conhecimento do homem independe da Escritura e de qualquer aspecto da “Graça”. Em contrariedade a este pensamento, Schaeffer afirmava a unidade entre Natureza e Graça uma vez que, a Graça não é apenas um complemento da Natureza, mas deve penetrar todas as esferas da Natureza, que encontra-se caída, e redimi-la.

Jean-Jacques Rousseau altera a formulação de “Natureza e Graça”, instaurando um novo modo de pensar em que a graça, ou seja tudo que corresponde ao divino, é substituída pela liberdade. Este pensamento racionalista provoca consequências tanto no campo da moral, quanto da epistemologia, uma vez que reforça o anseio pela autonomia. O pensamento do homem livre, independente de Deus, não faz sentido para Schaeffer. Para ele a existência e a realidade de Deus são necessárias e inevitáveis, já que os argumentos dos ateus não eram suficientes para justificar nem mesmo a existência humana. A fé cristã é racional e a versão mais aceitável para a existência do homem.

Após o pensamento de Rousseau, Kant e Hegel dão sequência as mudanças na
epistemologia moderna. Schaeffer atenta para as ideias de Hegel que, ao alterar a metodologia de construção do pensamento — do método antitético para o sintético, passa a enfatizar o relativismo. Logo, a relação entre fé e racionalidade também foi alcançada pelo relativismo, de modo que extinguiram-se as possibilidades de estabelecer um campo unificado de conhecimento. Soren Kierkegaard dicotomiza fé e razão. Defendia que para encontrar sentido e propósitos para vida era preciso abandonar a racionalidade e apegar-se a fé, como se estes dois aspectos fossem totalmente opostos. Em sua perspectiva, fé e racionalidade distanciam-se, principalmente, no sentido de que a racionalidade é pessimista e a fé, otimista.

Quando não se alcança mais respostas por meio da racionalidade, Kierkegaard propõe um salto de fé ou salto irracional. Schaeffer entende essa postura de Kierkegaard como desesperança. A partir dessa concepção o homem abandona o conhecimento verdadeiro e lança-se à fé, destituída da razão. O salto torna-se, portanto, imperativo para se chegar ao sentido da existência. Para Kierkegaard, a fé é um milagre, uma paixão, já que não pode ser explicada pelo intelecto. O conceito de salto de fé influenciou todo pensamento existencialista. Schaeffer diz que o movimento existencialista
foi o primeiro a cruzar a linha do desespero.


Soma-se ao pensamento de Kierkegaard o misticismo moderno. A partir de então, o salto de fé, para o nível superior, pressupõe um deus com diferentes conceitos. Não é o deus que importa mas a fé. Scheaffer critica esta perspectiva em que a fé é justificada em si mesmo e passa a significar total subjetividade e irracionalidade. Em contrariedade a Schaeffer, que defende o esclarecimento das questões da fé a partir do diálogo, estão ainda as ideias de Wittgenstein que defende o silêncio, argumentando que nada pode-se falar sobre o que se desconhece. A fé, destituída da racionalidade, é desconhecida e não pode ser dialogada.

Schaeffer Hoje
Schaeffer não ignorou a cultura, ao contrário, buscou fazer algo que poucos evangélicos faziam ainda no século 20: “explicar as respostas que a fé cristã oferece aos maiores dilemas do homem.”. (FERREIRA, 2019) Em vista disso, ele atribuía papel fundamental a cosmovisão, pois todos os fatos devem ser interpretados e entendidos a partir de um contexto.Entretanto, Schaeffer não baseou-se apenas nas questões de seu tempo, mas fundamentou-as ininterruptamente na Escritura. Este é o fator que torna o pensamento de Schaeffer, não ultrapassado, mas válido e aplicável na contemporaneidade. Sobre seu legado para nós, Nicodemus (2008) afirma:

Schaeffer foi um homem que viveu à frente de seu tempo. Sua análise crítica da cultura e da sociedade da sua época continua relevante e atual. Schaeffer
percebeu como poucos os efeitos a longo prazo, no Cristianismo e na sociedade global, da pós-modernidade, a qual começava a se manifestar em seus dias. Os temas aos quais Schaeffer se dedicou e sobre os quais escreveu são os mesmos temas que estamos discutindo hoje, como ecologia, ética na tecnologia, a globalização, o pluralismo e o relativismo. O legado de Schaeffer são suas obras sobre esses temas escritas a partir da cosmovisão cristã reformada. Partindo do referencial bíblico, Schaeffer submeteu a um severo escrutínio os argumentos, conceitos e idéias da pós-modernidade. Todos hoje que buscam uma análise social e cultural crítica consistente, justa e inteligente, do ponto de vista evangélico, encontram nas obras de Schaeffer um apoio inestimável. É claro que muitos o consideram fundamentalista por sua aderência à autoridade e infalibilidade das Escrituras. Mas é exatamente por isso, por partir do referencial bíblico, que sua obra permanece relevante para hoje. (LOPES, 2008)

 


Por Juliane Krause Krug

*O conteúdo deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos e não reflete necessariamente a posição do TeachBeyond Brasil ou de sua equipe ministerial. 

 

Referências:

KAPPELMAN, Todd A. Francis Schaeffer. Probe Ministries International, 1999. Disponível em:www.monergismo.com/textos/biografias/Todd_Kappelman_Francis_Schaeffer.pdf (Acesso em: 10 de abril de 2020).

 

CARVALHO, Guilherme de. Francis Schaeffer para o Século 21. Guilherme de Carvalho.2012. Disponível em: http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2012/02/08/francis-

schaeffer-para-o-seculo-21. (Acesso em: 10 de abril de 2020).

 

LOPES, Augustus L. Francis Schaeffer Hoje. O Tempora, O Mores. 2008. Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com/2008/05/francis-schaeffer-hoje.html. (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

NICHOLS, Stephen. Quem foi Francis Schaeffer?. Tuporém e Vida Nova. Ano. Disponível em:https://tuporem.org.br/quem-foi-francis-schaeffer. (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

FERREIRA, Franklin. Francis Schaeffer: “Levando Cativo todo pensamento”. L’Abri Fellowship Brazil. 2019. Disponível em: https://www.labri.org.br/francis-schaffer. (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

CHAGAS, Thiago. Teólogo Francis Schaeffer, ativista e escritor, completaria 100 anos se estivesse vivo. Gospel Mais. 2012. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/teologo-francis-schaeffer-ativista-escritor-100-anos-29932.html. (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

DULCI, Pedro. Inteligência pra quê?: Como usar seu cérebro para a glória de Deus(Amostra). Ed. Mundo Cristão, 2019. (Acesso em: 08 de abril de 2020).

 

LOPES, Augustus L. Fundamentalista é Isso?. O Tempora, O Mores. 2012. Disponível em: http://temporamores.blogspot.com/2012/06/fundamentalista-e-isso.html. (Acesso em: 08 de abril de 2020).

 

LOPES, Augustus L. Fundamentalismo e Fundamentalistas. Escola Charles Spurgeon. 2011.Disponível em: http://www.escolacharlesspurgeon.com.br/nav/pregacoes/texto.cshtml?categoria=teologicas&id=34. (Acesso em: 08 de abril de 2020).

 

METZ, Arthur. In: Amigos de L’Abri Sul. O que é o L’Abri?. 2020. Disponível em:https://www.facebook.com/amigosdelabrisul/videos/220092875730203/. (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

SCHAEFFER, Francis. Filosofia e Religião. Monergismo. 2007. Disponível em:

http://www.monergismo.com/textos/filosofia/filosofiareligiao_schaeffer.pdf (Acesso em: 09 de abril de 2020).

 

ALBIERO, Vítor A. A. Francis Schaeffer e o enfrentamento da crise de paradigmas. 2011. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011.

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